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Poluição sonora em Itaperuna: quando o barulho ultrapassa os limites do sossego

Itaperuna 02 de setembro de 2026

Poluição sonora em Itaperuna ameaça saúde e sossego

Por Flávia Pires

Música alta, obras em horários inadequados, festas que avançam pela madrugada, gritaria, apitos, instrumentos de percussão, crianças correndo dentro de apartamentos e até o barulho constante das unhas e dos brinquedos de animais no piso.

Embora ocorram em ambientes diferentes, todos esses casos têm algo em comum: a tentativa de normalizar ruídos que invadem a casa, prejudicam o descanso e comprometem a saúde de outras pessoas.

Mais preocupante do que o próprio barulho é a reação de parte da sociedade. Quando alguém reclama, surgem frases como: “É só um dia”, “criança é assim mesmo”, “quem mora em prédio precisa aceitar” ou “deixa o animal brincar”.

Mas até que ponto o direito de uma pessoa produzir barulho pode se sobrepor ao direito de outra descansar dentro da própria casa?

Denúncia na Cidade Nova reacende a discussão

Recentemente, moradores do bairro Cidade Nova, em Itaperuna, voltaram a denunciar o barulho excessivo vindo da quadra de uma escola particular localizada muito próxima a prédios residenciais.

Segundo os relatos encaminhados ao Blog Flávia Pires, houve um período de melhora, mas os excessos teriam retornado. Moradores reclamaram do uso de vuvuzelas, apitos, instrumentos de percussão, gritaria e outras manifestações sonoras durante atividades realizadas na quadra.

Os denunciantes afirmam que o barulho invade os apartamentos, tira o sossego e provoca grande desgaste emocional. Há, inclusive, relatos de idosos que teriam apresentado crises de ansiedade diante da intensidade dos ruídos.

Nas redes sociais, enquanto moradores descreveram o sofrimento provocado pelo barulho, outras pessoas tentaram diminuir o problema com argumentos como “é apenas um evento” ou “é preciso deixar as crianças serem crianças”.

Ninguém está defendendo o fim das atividades escolares, esportivas ou recreativas. A questão é outra: nenhuma atividade, mesmo com finalidade pedagógica, está acima do dever de respeitar a vizinhança.

Se uma escola está instalada ao lado de prédios residenciais, precisa considerar essa realidade. Isso envolve controle dos instrumentos utilizados, adequação da intensidade das atividades, planejamento de horários e, quando necessário, investimento em soluções acústicas.

Diversão, educação e esporte podem e devem existir, mas não às custas da saúde e do sossego de quem mora ao lado.

Dentro dos prédios, o problema também é tratado como normal

A cultura da normalização do barulho não está apenas nas ruas, festas ou grandes eventos. Ela também está presente dentro dos condomínios.

Há moradores que acreditam que, por estarem dentro do próprio apartamento, podem agir sem considerar quem vive no andar de baixo. Esquecem-se de uma regra básica da convivência: o piso de um apartamento também é o teto da casa de outra família.

Crianças correndo e pulando repetidamente, móveis sendo arrastados, objetos caindo no chão, brinquedos lançados contra o piso e animais andando constantemente com as unhas compridas são ruídos que se propagam pela estrutura do prédio.

Quando esses barulhos são frequentes e prolongados, deixam de representar situações ocasionais do cotidiano e passam a interferir diretamente no descanso, no trabalho, nos estudos e na saúde emocional dos vizinhos.

Não se trata de impedir uma criança de brincar nem de condenar a presença de animais em apartamentos. Trata-se de educação, responsabilidade e respeito.

Criança precisa receber limites e aprender que existem outras pessoas vivendo no mesmo prédio. Quem possui um animal também precisa adotar os cuidados necessários para que o barulho das unhas e dos brinquedos não se transforme em uma perturbação constante para o apartamento inferior.

Tapetes, brinquedos apropriados para ambientes internos, protetores nos pés dos móveis, manutenção das unhas dos animais e limites para corridas e brincadeiras de impacto são medidas simples que podem reduzir consideravelmente o problema.

O que não pode ser normalizado é o morador saber que está causando transtornos e, mesmo assim, não tomar qualquer providência. Nesse caso, já não se trata apenas de barulho. Trata-se de falta de educação, empatia e respeito pelo próximo.

O impacto do barulho na saúde

O ruído excessivo não é apenas um aborrecimento passageiro. A Organização Mundial da Saúde alerta que a exposição ao barulho está relacionada a problemas como perturbação do sono, dificuldade de concentração, prejuízo ao desempenho escolar e profissional, efeitos cardiovasculares e comprometimento do bem-estar físico e mental. A orientação da OMS também aponta associação com hipertensão, problemas auditivos e prejuízos cognitivos⁠.

O impacto pode ser ainda maior sobre idosos, bebês, pessoas enfermas, trabalhadores em regime de home office e indivíduos com Transtorno do Espectro Autista que apresentam hipersensibilidade auditiva.

Cada pessoa reage de uma maneira ao som. Aquilo que para alguns parece apenas uma brincadeira ou um evento pode representar sofrimento real para quem está dentro de casa tentando descansar, trabalhar ou cuidar da saúde.

Exigir que essas pessoas “tenham paciência” é desconsiderar que a residência deveria ser justamente o local de proteção, tranquilidade e segurança.

O direito ao sossego não é frescura

O direito de usar uma propriedade não é ilimitado. A convivência em sociedade exige que ninguém utilize o próprio espaço de maneira prejudicial à segurança, à saúde e ao sossego dos demais.

O artigo 42 da Lei das Contravenções Penais prevê a perturbação do trabalho ou do sossego alheios por meio de gritaria, algazarra, abuso de instrumentos sonoros e até pelo barulho produzido por animal quando seu responsável não procura impedi-lo. O texto está disponível no Portal da Legislação do Governo Federal⁠.

Existem ainda regras municipais, normas condominiais e parâmetros técnicos para avaliação do ruído em áreas habitadas. Portanto, não é correto afirmar que qualquer barulho pode ser produzido livremente durante o dia. Dependendo da intensidade, da duração, da repetição e das circunstâncias, o ruído pode causar perturbação em qualquer horário.

Reclamar não é ser intolerante

A normalização do barulho cria uma inversão perigosa: quem provoca o incômodo passa a ser defendido, enquanto a vítima é acusada de exagero, intolerância ou falta de paciência.

Respeitar uma reclamação não significa acabar com festas, proibir crianças de brincar, impedir a prática de esportes ou retirar animais dos apartamentos. Significa buscar equilíbrio para que o direito de um não destrua a tranquilidade do outro.

Antes de dizer que o vizinho está exagerando, é necessário tentar compreender o que ele enfrenta diariamente. Ninguém deveria ser obrigado a abandonar um cômodo, interromper o trabalho, perder o sono ou viver em estado de tensão por causa do comportamento de terceiros.

O silêncio absoluto não existe, especialmente nas cidades e nos condomínios. Entretanto, existe uma enorme diferença entre os sons normais da vida cotidiana e um barulho repetitivo, evitável e excessivo.

Conviver exige bom senso, educação e empatia. Garantir o sossego dentro da própria casa não é luxo, intolerância ou frescura. É uma questão de saúde, civilidade e respeito.

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