Chapa de Eduardo Paes busca aproximação com religiosos, enquanto histórico de Pedro Paulo coloca coerência no centro do debate
Itaperuna 24 de agosto de 2026
Jane Reis, evangélica e casada com pastor da Assembleia de Deus, ocupa a vice; Pedro Paulo, candidato ao Senado apoiado por Lula, admitiu episódios de agressão envolvendo a ex-mulher, mas não foi denunciado nem condenado
A chapa liderada por Eduardo Paes na disputa pelo Governo do Rio reúne forças políticas de diferentes origens e tenta ampliar sua presença entre diversos segmentos da sociedade, inclusive o religioso.
A candidata a vice-governadora é a advogada Jane Reis, do MDB. Irmã de Washington Reis, ela é evangélica, casada com um pastor da Assembleia de Deus e já utilizou publicamente sua fé como parte de sua apresentação política.
A escolha foi interpretada como uma ponte para ampliar o diálogo da candidatura de Eduardo Paes com o segmento evangélico. A composição recebeu o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e inclui Pedro Paulo, do PSD, como candidato ao Senado.
A presença de uma mulher evangélica na vice é legítima. Mas a utilização da religião dentro de uma estratégia eleitoral também coloca no centro do debate a trajetória e as posições dos demais integrantes do palanque.
Evangélicos, católicos e cidadãos de qualquer outra crença têm o direito de conhecer não somente a religião declarada por uma candidata, mas também o histórico, as alianças e as posições públicas de todos aqueles que pedem sua confiança.
Pedro Paulo admitiu episódios de agressão
Em 2015, Pedro Paulo reconheceu publicamente a ocorrência de episódios de agressão envolvendo sua ex-mulher, Alexandra Marcondes, em 2008 e 2010.
Os acontecimentos vieram a público durante a preparação de sua candidatura à Prefeitura do Rio. Alexandra havia registrado ocorrências policiais relatando agressões físicas, incluindo socos, chutes e empurrões.
Inicialmente, Pedro Paulo tratou o caso de 2010 como um episódio isolado. Posteriormente, depois da revelação do registro de 2008, reconheceu também a existência do episódio anterior.
Em suas declarações, falou em “descontrole” durante uma crise conjugal e em “agressões mútuas”. Também apresentou um pedido público de desculpas à ex-mulher e à família.
Alexandra participou de uma entrevista coletiva ao lado de Pedro Paulo e afirmou que ele nunca havia sido uma pessoa agressiva. Posteriormente, apresentou uma versão segundo a qual teria iniciado uma agressão e o então marido teria reagido para se defender.
Inquérito foi arquivado
O caso de 2010 foi investigado no Inquérito 4.199, que tramitou no Supremo Tribunal Federal.
Em agosto de 2016, o ministro Luiz Fux determinou o arquivamento da investigação, atendendo a um pedido da Procuradoria-Geral da República ( O que ocorreu nos bastidores para que Janot pedisse o arquivamento, ninguém sabe). A PGR considerou que não ficou demonstrada uma conduta dolosa de Pedro Paulo para provocar as lesões e acolheu a tese de atitude defensiva.
Pedro Paulo não foi denunciado, não virou réu e não foi condenado. Portanto, não possui condenação criminal decorrente desse inquérito.
O arquivamento precisa ser informado com a mesma clareza que os registros policiais e as declarações públicas do candidato. Entretanto, ele não torna inexistentes os episódios reconhecidos pelo próprio Pedro Paulo nem o pedido de desculpas apresentado por ele.
Lula declarou confiança em Pedro Paulo
Pedro Paulo integra a composição política de Eduardo Paes e recebeu o apoio público de Lula durante comício no Estádio Moça Bonita, em Bangu.
“Pedro Paulo merece toda a minha confiança”, declarou o presidente.
A declaração confirmou que o candidato ao Senado não está apenas no mesmo palanque de Eduardo Paes. Ele também participa de uma aliança nacional com Lula e exerce a função de vice-líder do governo na Câmara dos Deputados.
A aproximação com Lula é apresentada pelos aliados de Pedro Paulo como uma demonstração de sua capacidade de articulação em Brasília.
Ao mesmo tempo, essa relação faz com que as posições do presidente em pautas de valores e segurança também sejam observadas por parte do eleitorado religioso.
Qual é a posição de Lula sobre o aborto?
Não é correto afirmar simplesmente que Lula “defende o aborto” sem apresentar o contexto completo.
O presidente já declarou que, pessoalmente, é contrário à prática. Como chefe de Estado, entretanto, defende que o aborto seja tratado como uma questão de saúde pública e que sejam respeitadas as situações atualmente permitidas pela legislação brasileira.
No Brasil, o aborto não é punido quando a gravidez resulta de estupro, quando existe risco de vida para a gestante ou em caso de feto anencéfalo.
Essa posição pode ser aceita ou contestada pelos cidadãos, inclusive por evangélicos e católicos. O papel do jornalismo é apresentá-la corretamente para que o debate não seja construído sobre informações distorcidas.
Governo rejeita classificação jurídica das facções como terroristas
Na segurança pública, o governo Lula é contrário à classificação jurídica de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
A justificativa oficial é que essas facções devem ser enfrentadas pela legislação destinada às organizações criminosas. O governo também sustenta que uma classificação internacional como terrorismo poderia abrir caminho para sanções, medidas estrangeiras e interferências que atingissem a soberania brasileira.
O próprio Lula já afirmou que PCC e Comando Vermelho “são terroristas para as comunidades brasileiras”, mas diferencia essa declaração política do enquadramento jurídico defendido por seus adversários.
A oposição questiona essa posição diante do domínio territorial exercido pelas facções, do tráfico de drogas e armas, dos ataques contra agentes públicos e do medo imposto a milhões de moradores.
Para a população do Rio de Janeiro, esse não é um debate distante. É uma questão diária.
Eduardo Paes e Pedro Paulo precisam esclarecer se concordam integralmente com a posição do governo federal e qual política concreta defendem para enfrentar o poder econômico, territorial e militar das facções criminosas no estado.
A fala sobre roubo de celular
Outro episódio frequentemente lembrado no debate sobre segurança envolve uma declaração de Lula sobre roubo de celulares.
Na entrevista original, Lula afirmou que uma pessoa roubaria um aparelho “para vender, para ganhar um dinheirinho”.
Para seus críticos, a declaração relativizou a responsabilidade de quem pratica o crime e colocou a explicação social acima do sofrimento da vítima que teve seu patrimônio levado.
A versão segundo a qual Lula teria dito que o criminoso rouba celular “para tomar uma cervejinha”, entretanto, foi produzida pela junção de dois momentos diferentes da entrevista. A referência à cerveja ocorreu posteriormente, quando Lula falava sobre torcidas de futebol e polarização política.
A frase verdadeira já permite uma cobrança firme: ao explicar o roubo principalmente pela desesperança, Lula não estaria diminuindo a responsabilidade individual de quem escolhe atacar e roubar outro cidadão?
Religião não pode funcionar como escudo
Jane Reis tem o direito de professar sua fé, participar de sua igreja e apresentar suas convicções à sociedade. O questionamento não está em sua religião.
O debate está na possibilidade de sua imagem religiosa ser utilizada para aproximar a chapa de Eduardo Paes dos evangélicos enquanto o histórico e as posições dos demais aliados ficam fora dos discursos de campanha.
A fé de Jane não pode ser transferida automaticamente para Pedro Paulo, Eduardo Paes, Washington Reis ou Lula. Da mesma maneira, sua presença na chapa não pode funcionar como um selo de aprovação moral para todos os integrantes do grupo.
Evangélicos e católicos também são cidadãos preocupados com segurança pública, proteção às mulheres, combate à corrupção, geração de empregos, desenvolvimento industrial, saúde e educação.
Por isso, a chapa de Eduardo Paes precisa explicar quais propostas concretas possui para enfrentar o domínio territorial das facções, recuperar a segurança do estado, ampliar a transparência pública, atrair novas empresas e desenvolver as regiões do interior.
Também precisa esclarecer como concilia o discurso de defesa das mulheres e da família com a presença de um candidato que admitiu episódios de agressão envolvendo a própria ex-mulher, ainda que a investigação tenha sido arquivada e não exista condenação.
Coerência também será avaliada
A eleição não pode ser reduzida à religião declarada por um candidato, a uma
