Utilidade Pública

Quando o direito vira favor: o velho vício político que mantém currais eleitorais

Itaperuna 06 de outubro de 2026

Isenção de taxa, transporte para enterros, ajuda a instituições, consultas médicas, exames e outros favores podem atender necessidades reais. O problema começa quando essas ações são apresentadas como favor pessoal e usadas para criar dependência política

A política precisa ser feita para servir à população. Mas ainda se vê uma prática que merece ser debatida: o vereador que transforma ajuda em moeda política.

Uma família enfrenta dificuldades e alguém oferece ajuda para pagar uma taxa de cemitério. Há um enterro e surge a promessa de ônibus para levar moradores. Uma instituição precisa de apoio e começam as vaquinhas. Alguém precisa de uma consulta médica ou de um exame e procura um político para conseguir atendimento. Um funcionário de uma unidade de saúde recebe uma moção de aplausos e, em vez de o reconhecimento ser pelo trabalho prestado, a homenagem vira motivo de disputa entre vereadores.

A solidariedade é necessária. A ajuda a quem precisa também. O questionamento é outro: essa ajuda está sendo organizada de forma transparente, como parte de uma política pública, ou está sendo apresentada como favor pessoal para conquistar gratidão e apoio?

Serviços e benefícios públicos precisam seguir regras claras, iguais para todos e conhecidas pela população. Uma isenção de taxa deve ter critérios definidos. O transporte para atender uma comunidade precisa ser oferecido com transparência. Consultas e exames devem ser acessíveis por meio de serviços de saúde organizados, sem que o cidadão tenha de depender da proximidade com um vereador. E o apoio a instituições não pode servir para que um político aja como dono da iniciativa ou espere reconhecimento em troca.

Quando a pessoa acredita que depende da boa vontade de um político para conseguir algo básico, cria-se uma relação desigual. Em vez de cobrar um direito, ela pode sentir que precisa agradecer, retribuir ou manter fidelidade. É assim que a política deixa de buscar soluções para toda a cidade e passa a girar em torno de favores individuais.

O mesmo vale para as instituições públicas. Uma UBS não pertence a vereador algum. O trabalho de seus profissionais merece reconhecimento, mas a unidade é um serviço público e os funcionários atendem à população. Moções de aplauso podem ser legítimas, desde que não sejam tratadas como disputa por território ou como se o mérito de um servidor pertencesse a um político.

Não se trata de impedir vereadores de ajudar ou reconhecer pessoas. Trata-se de perguntar como, por que e com quais recursos essa ajuda é feita. O que é público precisa ser transparente. O que é direito não pode ser apresentado como favor. E a solidariedade não deve servir para criar dependência política.

O eleitor merece respeito. Merece serviços públicos funcionando, critérios iguais e representantes que fiscalizem, proponham e cobrem soluções. A população não pode ser tratada como propriedade de ninguém.

Combater essa prática é fortalecer uma política mais séria: menos favor personalizado, mais direito garantido; menos disputa por gratidão, mais trabalho para toda a comunidade.

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