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Quando o silêncio grita: uma reflexão sobre a tragédia que aconteceu em Comendador Venâncio em Itaperuna-RJ

Itaperuna 26 de junho de 2025

A tragédia que abalou a comunidade de Comendador Venâncio, distrito de Itaperuna (RJ), deixou a cidade em estado de choque. Um adolescente de apenas 14 anos confessou o assassinato dos próprios pais e do irmão de 4 anos. Um crime que não encontra explicações fáceis — e que nos convoca a uma escuta mais profunda sobre saúde mental, vínculos familiares e o silêncio que antecede o colapso.

Neste momento de dor e perplexidade, o Blog Flávia Pires abre espaço para uma reflexão assinada pela psicóloga Mariana Ramos, itaperunense, profissional com sólida atuação na área da Saúde Mental. Com experiência clínica e acadêmica.

Mariana compartilha abaixo um texto forte e necessário, que não busca julgar, mas compreender. Que não aponta culpados, mas alerta para o que temos deixado de enxergar. Uma reflexão urgente.

Reflexão – Por Mariana Ramos

ESPELHOS DE CINZAS

Na década de 80, a saudosa Legião Urbana nos sinalizou…
Nos deram espelhos — e vimos…
um mundo doente, olhos secos,
tentei chorar… mas não consegui (onde está nossa compaixão???)
Sofre quem exagera,
sofre quem se abstém de tudo,
sofre quem mede suas horas na régua alheia
e sofre quem passa invisível pelo corredor.
Sofre quem espera o que nunca virá,
sofre quem recusa o que já tem,
sofre quem habita um corpo
que nunca aprendeu a chamar de casa.
Quem sofre pelo outro carrega dor em dobro;
pensa na morte — e dói;
foge da morte — e dói também.
Julga? sofre.
É julgado? sofre.
Acredita que não acontecerá com você?
Sofrimento é uma questão de tempo…

Menino que ignora a lágrima multiplica a chuva,
mulher que troca de amor para negar o vazio
desperta o mesmo vazio em novo endereço.
Pais que negam o sofrimento não despertam a transcendência
Sofre quem bate, sofre quem apanha,
sofre quem sempre ouve “não”
e ainda mais quem nunca ouviu um só “não”.
Perde — sofre.
Ganha — sofre logo depois,
porque o instante é frágil e o pêndulo volta.
Há quem prometa banir a dor a qualquer preço
e espalhe guerra em nome da paz,
uma reação em cadeia de feridas sem nome.
Todos sofremos:
na emoção que transborda,
na ação que paralisa,
no silêncio cúmplice,
na revolta inútil.
Como nos diz Cazuza: metralhadora de mágoas,
Que tem mira ou em qualquer mira…

Mas o que nos faz humanos
é o ofício de moldar esse sofrimento:
temperá-lo em compaixão,
lapidá-lo em lucidez,
transformá-lo em ponte — não em muro.

A ausência total de dor
nos declararia ilhas estéreis,
individualistas à beira de extinção.
Portanto, quando o espelho devolver
o brilho opaco da própria finitude,
saibamos ver na rachadura do vidro
o lugar por onde nasce
a luz que ainda resta.
Sofremos por ação alheia ou pela nossa própria;
afinal, o sofrimento é parte da condição humana,
e sua total ausência traz em si mesma a semente da catástrofe.

Sobre a autora

Mariana Ramos é Psicóloga e Neuropsicóloga formada com licenciatura e bacharelado, Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, Psiquiatria com Ênfase em Saúde Mental, Saúde Mental e Neuropsicopedagogia. Atua como Docente Universitária e Supervisora Clínica na Fundação São José (UNIFSJ) e n UNIREDENTOR/ Afya, em Itaperuna, onde também realiza ações comunitárias e atividades de extensão. A Profissional tem atuação pelo Programa de Saúde Mental há 17 anos. É Autora de Livros de livros de Saúde Mental, Neuropsicologia, Terapia Cognitivo Comportamental dentro da Psicologia.
Além de sua atuação acadêmica, Mariana mantém consultório clínico, com atendimento a crianças, adolescentes, adultos e idosos. Seu trabalho é reconhecido pela escuta ética, acolhimento emocional e dedicação à Saúde Mental e Desenvolvimento Humano da população de Itaperuna e região.

Instagram profissional: @marineuropsi

Dra.Mariana Ramos

Atualmente, Mariana mantém consultório particular e também produz conteúdo sobre saúde emocional, comportamento e prevenção de adoecimentos psíquicos.

Instagram profissional: @marineuropsi

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